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Missão, Visão e Muita Ficção (O paradoxo dos lemas corporativos)

Entrar em qualquer escritório moderno — ou abrir a página institucional da firma — é se deparar com um verdadeiro festival de palavras de efeito. "Pessoas em primeiro lugar", "Cultura de empatia", "Inovação colaborativa". Essas frases estão estampadas no vidro da recepção, na assinatura de e-mail do RH e no discurso emocionado do CEO na reunião trimestral. Mas basta o expediente começar de verdade para você perceber que, na prática, a teoria é completamente outra.

Existe um abismo gigantesco entre o lema pintado na parede e a atitude do gestor que te manda mensagem fora do horário cobrando uma planilha que ele esqueceu de pedir. E a pergunta que fica martelando na cabeça durante as nossas nove horas diárias é: por que gastam tanto tempo e dinheiro criando esses mantras se quase ninguém os segue?
A resposta é simples e um tanto cínica: os lemas corporativos existem para fazer o capitalismo de corredor parecer mais humano. Uma empresa, por natureza, é uma máquina de gerar resultados e lucros. Como essa realidade nua e crua pode parecer fria demais, cria-se uma maquiagem ética. O lema bonito funciona como um escudo moral: ele serve para atrair talentos no LinkedIn e para fazer com que metas agressivas pareçam parte de um "propósito maior e transcendental".
O ápice do teatro acontece quando percebemos que nem quem criou a frase consegue sustentá-la. A diretoria prega "portas abertas e transparência", mas toma decisões cruciais em almoços secretos. Exige-se "ousadia para errar", mas o primeiro deslize técnico é punido com olhares tortos e puxões de orelha.
O colaborador, que não é bobo e precisa garantir o seu sustento, aprende a jogar o jogo. Ele decora os jargões da moda, repete os valores da empresa na avaliação de desempenho para garantir o bônus, mas sabe perfeitamente que aquilo é apenas um roteiro de teatro que todos fingem acreditar.
No fim do turno, quando as luzes do escritório se apagam, o que sustenta o negócio não são as palavras bonitas do quadro motivacional. São as pessoas reais, muitas vezes exaustas, compensando a desorganização do sistema. Ter um lema humanizado não torna uma corporação mais humana; apenas prova que ela contratou uma excelente agência de publicidade.
Se o lema da sua empresa diz "Cuidamos dos nossos", mas a realidade te entrega apenas prazos irreais e cobranças desmedidas, lembre-se: aquilo não é um valor. É só propaganda.
O turno acabou. Deixe a ficção de lado e vá viver a vida real. 

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