Chega aquela época gloriosa do ano. O calendário avisa que o seu gestor vai tirar 20 dias ininterruptos de descanso. A equipe troca olhares discretos e suspira aliviada, imaginando algumas semanas de paz, processos fluindo sem microgestão e aquele clima leve de "férias por tabela".
Mas a alegria dura pouco. Na fatídica reunião de alinhamento de sexta-feira, o gestor solta a bomba sobre quem vai ficar responsável pelo departamento.E é aí que o caos começa.
A Divisão do Reino e o Critério da Amizade
Em vez de tomar a atitude lógica e apontar um líder interino claro — alguém com perfil para centralizar demandas e resolver conflitos —, o gestor resolve fatiar o poder. Ele anuncia a criação de um verdadeiro comitê de transição.
E quem são os escolhidos para compor esse conselho? Como já sabemos como funcionam as engrenagens das amizades corporativas, a resposta é óbvia: os amigos pessoais dele.
Não importa se o "Fulano" não sabe aprovar um simples fluxo no sistema ou se a "Ciclana" tem a inteligência emocional de uma porta. Eles jogam beach tennis com o chefe no final de semana, almoçam na mesma mesa e riem das mesmas piadas. Logo, são eles que ganham a coroa interina. O departamento é dividido em feudos, e cada amigo do chefe ganha um pedaço de terra para governar.
O Inferno de Quem Fica na Base
Para a equipe que precisa fazer o trabalho real acontecer, o cenário vira o clássico ditado: cachorro com muitos donos morre de fome. A descentralização malfeita cria um labirinto burocrático impossível de navegar.
Na prática, o dia a dia se transforma nisso:
- A Dança da Aprovação: Você precisa aprovar uma urgência. O Substituto A diz que isso é com o Substituto B. O Substituto B jura que o chefe deixou isso na mão do Substituto C. O Substituto C está em horário de almoço estendido.
- Instruções Conflitantes: Como não há alinhamento entre os "amigos do rei", um manda você priorizar o Projeto X, enquanto o outro exige que você pare tudo e foque no Projeto Y.
- O Deslumbramento do Poder Provisório: Pessoas que nunca tiveram um cargo de liderança antes de repente se veem com poder de veto. A síndrome do pequeno poder ataca com força, e processos que antes levavam minutos passam a exigir relatórios detalhados só para o interino sentir que está "gerenciando".
Você pode se perguntar: por que um gestor faria isso com a própria equipe? Por que criar tanta confusão em vez de simplesmente promover temporariamente a pessoa mais capacitada do time?
A resposta quase sempre se resume a uma palavra: insegurança.
Se um gestor escolhe a pessoa mais competente para cobri-lo, corre o risco de essa pessoa fazer um trabalho melhor do que o dele. A equipe pode gostar mais da clareza do interino. A diretoria pode notar que o setor fluiu mais rápido sem os gargalos habituais.
Ao pulverizar a liderança entre seus "parças", o gestor garante duas coisas:
- Ninguém vai se destacar o suficiente para ameaçar a sua cadeira.
- Quando ele voltar e encontrar o departamento em chamas e a equipe à beira de um ataque de nervos, ele aparecerá como o grande salvador da pátria, provando o quão "indispensável" ele é para a empresa.
No fim das contas, a equipe sobrevive às custas de muita paciência e conversas no grupo paralelo do WhatsApp. E quando o gestor finalmente retorna, bronzeado e perguntando "sentiram minha falta?", a equipe apenas sorri e acena. Afinal, a verdade sobre o teatro corporativo é algo que a gente guarda apenas para o fim do expediente.

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